Dispositivo de Auxílio à Marcha
Muleta Axilar
Suporte axilar para descarga total ou parcial em curto prazo — fraturas, pós-operatório imediato e situações temporárias.
O que é a muleta axilar
A muleta axilar é o dispositivo mais conhecido para descarga unilateral total ou parcial. Possui um coxim almofadado superior que se apoia no flanco da caixa torácica (não diretamente na axila), uma empunhadura horizontal e uma haste única terminando em ponteira de borracha. Geralmente usada em pares (uma em cada lado).
É um dispositivo eficiente para curto prazo — tipicamente entre 1 e 6 semanas. Para usos mais longos, a muleta canadense é preferida, pois evita complicações neurovasculares na axila.
Onde o peso realmente deve ficar
Apesar do nome, a muleta axilar NÃO deve receber peso na axila. A carga é transferida pela empunhadura para o punho, ombro e parede torácica lateral. O coxim axilar serve apenas como guia e estabilizador — nunca como ponto de apoio para o peso corporal. O coxim deve ficar a 2-3 dedos abaixo da axila.
Quando é indicada
- Fraturas de membros inferiores (tíbia, fíbula, tornozelo, pé) com indicação de não-descarga ou descarga parcial
- Pós-operatório imediato de cirurgias ortopédicas (1-6 semanas iniciais)
- Lesões agudas de tornozelo (entorses grau III, rupturas de tendão de Aquiles)
- Descarga total temporária em úlceras plantares ou infecções de membro inferior
- Pacientes com força preservada de membros superiores e bom equilíbrio de tronco
- Situações em que a muleta canadense seria ideal mas o paciente não tolera a carga concentrada no punho/cotovelo
Riscos da muleta axilar mal usada
Atenção: paralisia do muleteiro
O uso prolongado ou incorreto da muleta axilar — com peso apoiado diretamente na axila — pode lesar o plexo braquial e os vasos axilares, causando dormência, formigamento, fraqueza muscular e, em casos graves, paralisia temporária ou definitiva do braço. Essa complicação é conhecida na literatura como "crutch palsy" (paralisia do muleteiro) e justifica preferir a muleta canadense para uso por mais de 6 semanas.
- Compressão do plexo braquial: parestesia, dor irradiada para o braço, fraqueza muscular
- Trombose da veia axilar: complicação rara mas grave
- Lesões de pele: escoriação e bolha no flanco torácico em contato com o coxim
- Tendinite do manguito rotador: por sobrecarga repetitiva do ombro
- Dor cervical: por elevação compensatória dos ombros
Como ajustar corretamente
1. Altura total da muleta
Com o paciente em pé, calçado, com a muleta em posição vertical próxima ao corpo: o coxim axilar deve ficar 2 a 3 dedos (4-5 cm) abaixo da prega axilar. Nunca encostado na axila.
2. Altura da empunhadura
Com o paciente em pé, braços relaxados: a empunhadura deve coincidir com a prega do punho. Ao apoiar a mão, o cotovelo deve flexionar entre 20° e 30°.
3. Posicionamento da muleta
As ponteiras devem ficar aproximadamente 15 cm à frente e 15 cm lateralmente aos pés (o chamado "tripé" muleta-pé). Essa base ampla é essencial para estabilidade.
Coxim
2-3 dedos ABAIXO da axila. Não deve tocar a axila durante o uso.
Empunhadura
Linha do punho, cotovelo a 20°-30° de flexão.
Base
Ponteiras 15 cm à frente e 15 cm laterais aos pés.
Técnicas de marcha
Marcha em 3 pontos (descarga total)
Indicada quando o membro afetado não pode receber NENHUMA carga (ex: fratura instável, pós-cirúrgico imediato).
- Avance ambas as muletas à frente simultaneamente.
- Mantenha o membro afetado suspenso (não toca o chão).
- Apoie-se na empunhadura (mãos) e oscile o corpo para frente, levando o membro saudável à frente das muletas.
- Repita.
Marcha em 3 pontos modificada (descarga parcial)
Quando há liberação para descarga parcial (toque do dedão, 25%, 50% do peso). As muletas e o membro afetado avançam juntos, e o membro saudável ultrapassa em seguida.
Marcha em 2 pontos (apoio bilateral leve)
Muleta direita + pé esquerdo avançam juntos; muleta esquerda + pé direito avançam juntos. Padrão recíproco mais rápido.
Escadas
- Subindo: pé saudável sobe primeiro; depois as muletas e o pé afetado sobem juntos.
- Descendo: muletas e pé afetado descem primeiro; depois o pé saudável.
- Use corrimão sempre que possível — ambas as muletas no lado oposto ao corrimão.
Erros comuns
- Apoiar o corpo no coxim axilar — risco direto de paralisia do muleteiro.
- Coxim encostado na axila — altura excessiva da muleta.
- Elevação dos ombros ao andar — sinal de muleta muito longa.
- Inclinação do tronco para frente — sinal de muleta muito curta.
- Avançar pouco com as muletas — passos curtos demais geram marcha ineficiente.
- Não usar luva ou proteção em uso prolongado — calos e bolhas na palma da mão.
Limitações e quando trocar
A muleta axilar é excelente para uso de curto prazo, mas torna-se inadequada quando:
- O uso ultrapassa 4-6 semanas (considere muleta canadense)
- O paciente apresenta artrite ou dor crônica de ombro
- Surgem sinais de parestesia ou fraqueza do membro superior
- O paciente é idoso muito frágil — andador costuma ser mais seguro
- Há instabilidade de tronco significativa
Curva de progressão típica
Em fraturas de membro inferior, a progressão usual é: muletas axilares com descarga zero → muletas axilares com descarga parcial crescente → muleta canadense ou bengala → marcha independente. A liberação para cada estágio depende de avaliação clínica e, em fraturas, de imagem (raio-X) confirmando consolidação óssea.
Manutenção
Inspecione ponteiras semanalmente — desgaste rápido pelo uso intenso em pós-operatório. Verifique parafusos de regulagem e travas de altura. O coxim axilar pode rasgar com o uso — substitua antes que a estrutura plástica/madeira interna fique exposta. Confira se o conjunto está alinhado: muletas tortas indicam dano estrutural e devem ser substituídas.