Dispositivo de Auxílio à Marcha

Muleta Canadense

Muleta de antebraço com braçadeira — descarga maior que bengala, mais segura que a axilar para uso prolongado.

Muleta canadense com braçadeira de antebraço

O que é a muleta canadense

A muleta canadense (também chamada de muleta de antebraço, muleta inglesa ou Lofstrand) é um dispositivo composto por uma haste vertical com empunhadura horizontal e uma braçadeira em U que envolve o antebraço logo abaixo do cotovelo. Sua biomecânica transfere a carga para o cotovelo e o punho — sem comprimir a região axilar como ocorre nas muletas tradicionais.

É o dispositivo de escolha para situações de uso prolongado, pacientes neurológicos crônicos e pós-operatórios que se estendem por semanas ou meses. Quando bem ajustada, oferece estabilidade comparável à muleta axilar com muito mais conforto e menor risco de complicações neurovasculares.

Por que a canadense é mais segura para uso crônico

A muleta axilar comprime o plexo braquial e os vasos da região axilar quando usada por muitas semanas, podendo causar paralisia temporária do braço, dormência e fraqueza (a chamada "paralisia do muleteiro"). A canadense elimina esse risco porque a carga é distribuída entre antebraço (braçadeira) e mão (empunhadura) — nunca na axila.

Quando é indicada

  • Pós-cirúrgico prolongado (artroplastia de quadril ou joelho, fraturas de membro inferior) — uso por semanas/meses
  • Sequelas neurológicas crônicas (poliomielite, AVC com hemiparesia leve, lesão medular incompleta)
  • Amputação unilateral de membro inferior em fase de protetização
  • Pacientes jovens e ativos que precisam de mobilidade rápida e necessitam manter as mãos parcialmente livres (com braçadeira, é possível abrir uma porta sem soltar a muleta)
  • Quando a muleta axilar foi indicada mas o uso ultrapassará 4-6 semanas
  • Reabilitação de marcha com necessidade de descarga parcial bilateral

Como ajustar corretamente

1. Altura da empunhadura

Com o paciente em pé, calçado, braços relaxados ao lado do corpo, a empunhadura deve coincidir com a prega do punho ou com a linha do trocanter maior. Ao apoiar a mão, o cotovelo deve flexionar entre 15° e 30° — nunca esticado.

2. Posição da braçadeira

A braçadeira em U deve envolver o antebraço logo abaixo do cotovelo, aproximadamente a 2,5 a 5 cm abaixo do olécrano (osso saliente posterior do cotovelo). Não pode comprimir o cotovelo nem cair sobre o punho.

3. Tamanho da braçadeira

A abertura deve permitir entrada e saída do antebraço sem aperto, mas sem folga excessiva. Braçadeira solta gira em torno do braço e desestabiliza a marcha; braçadeira apertada causa garroteamento e pressão sobre nervo ulnar/radial.

Empunhadura

Linha do trocanter maior ou prega do punho. Cotovelo a 15°-30° de flexão.

Braçadeira

2,5-5 cm abaixo do olécrano. Firme mas sem comprimir.

Empuxo

Carga vai para empunhadura e antebraço — NÃO para axila.

Técnicas de marcha

Marcha em 2 pontos (carga parcial bilateral leve)

Muleta direita avança junto com membro inferior esquerdo; muleta esquerda avança junto com membro inferior direito. Padrão recíproco, marcha mais rápida.

Marcha em 3 pontos (descarga total ou parcial unilateral)

Ambas as muletas avançam junto com o membro afetado; depois, o membro saudável é trazido à frente. Padrão típico do pós-operatório de quadril/joelho com restrição de descarga.

Marcha em 4 pontos (instabilidade bilateral significativa)

Muleta direita → pé esquerdo → muleta esquerda → pé direito. Marcha lenta e estável, ideal para pacientes neurológicos.

Escadas

  • Subindo: pé saudável sobe primeiro, depois muletas e pé afetado.
  • Descendo: muletas e pé afetado descem primeiro, depois o pé saudável.
  • Sempre que possível, use corrimão com um dos braços, levando ambas as muletas no outro lado.

Erros comuns

  • Braçadeira muito alta ou baixa — força extensão excessiva do punho e causa dor no antebraço.
  • Apoiar peso sobre o cotovelo em vez da empunhadura — sobrecarrega o nervo ulnar e causa parestesia (dormência).
  • Cotovelo totalmente esticado ao apoiar — muleta curta; sobrecarrega o ombro.
  • Ponteira gasta — escorregões frequentes; substitua quando os sulcos antiderrapantes não forem mais visíveis.
  • Avançar a muleta longe demais à frente — gera passo muito longo e desequilíbrio.

Vantagens e limitações

Vantagens

Não comprime axila. Pode ser usada por meses sem complicações. Mãos parcialmente livres com braçadeira.

Limitações

Exige força e coordenação de punho e cotovelo. Curva de aprendizado maior que a axilar. Pode ser difícil para idosos muito frágeis.

Atenção

A muleta canadense exige força preservada no antebraço, punho e mão. Pacientes com artrite reumatoide significativa, sequelas neurológicas do membro superior ou fraqueza grave podem ter melhor desempenho com andador. Avaliação fisioterapêutica é fundamental para decidir.

Manutenção

Inspecione ponteiras semanalmente. Verifique parafusos de regulagem mensalmente. Confira se a braçadeira não está rachada ou solta — é uma falha estrutural comum em muletas baratas. Em modelos com punho ergonômico de espuma, o revestimento pode ressecar e rachar com o tempo — substitua quando perceber sinais de desgaste.

O caminho terapêutico

Em reabilitação pós-cirúrgica, a muleta canadense costuma ser a transição entre o andador (primeiras semanas) e a bengala ou a marcha independente. A liberação para uso de bengala ou marcha sem apoio deve ser feita pelo fisioterapeuta com base em testes funcionais objetivos (Timed Up and Go, equilíbrio em apoio unipodal, força de quadríceps), não apenas pela sensação subjetiva do paciente.

Veja outros dispositivos:

Muleta Axilar

Suporte axilar para uso de curto prazo após cirurgias ou fraturas.

Bengala Simples

Etapa seguinte na progressão de reabilitação, quando a descarga já é maior.